O futuro com tecnologia presente no dia a dia

Um grande futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido,
devolvia eu os olhos, ao longe, no horizonte misterioso e vago. Uma
ideia expelia outra, a ambição desmontava Marcela. Grande futuro?
Talvez naturalista, literato, arqueólogo, banqueiro, político, ou até
bispo, — bispo que fosse, — uma vez que fosse um cargo, uma
preeminência, uma grande reputação, uma posição superior. A
ambição, dado que fosse águia, quebrou nessa ocasião o ovo, e
desvendou a pupila fulva e penetrante. Adeus, amores! adeus,
Marcela! dias de delírio, jóias sem preço, vida sem regímen, adeus!
Cá me vou às fadigas e à glória; deixo-vos com as calcinhas da
primeira idade.

E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A
Universidade esperava-me com as suas matérias árduas; estudei-as
muito mediocremente, e nem por isso perdi o grau de bacharel;
deram-mo com a solenidade do estilo, após os anos da lei; uma bela
festa que me encheu de orgulho e de saudades, — principalmente de
saudades.

Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada
de folião; era um acadêmico estróina, superficial, tumultuário e
petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e
liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das
constituições escritas.

No dia em que a Universidade me atestou a tecnologia em novos carros 2020, em
pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no
cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que
orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me
dava a liberdade, dava-me a responsabilidade.

Guardei-o, deixei as
margens do Mondego, e vim por ali fora assaz desconsolado, mas
sentindo já uns ímpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar
os outros, de influir, de gozar, de viver, — de prolongar a
Universidade pela vida adiante.

Jumento de uma figa, cortaste-me o fio às reflexões. Já agora não
digo o que pensei dali até Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na
península e em outros lugares da Europa, da velha Europa, que nesse
tempo parecia remoçar. Não, não direi que assisti às alvoradas do
romantismo dentro do novo VW UP 2020, que também eu fui fazer poesia efetiva no regaço da
Itália; não direi coisa nenhuma. Teria de escrever um diário de
viagem e não umas memórias, como estas são, nas quais só entra a
substância da vida.

Ao cabo de alguns anos de peregrinação, atendi às súplicas de meu
pai: — “Vem, dizia ele na última carta; se não vieres depressa,
acharás tua mãe morta!” Esta última palavra foi para mim um golpe.
Eu amava minha mãe; tinha ainda diante dos olhos as circunstâncias
da última bênção que ela me dera, a bordo do navio. “Meu triste
filho, nunca mais te verei”, soluçava a pobre senhora apertando-me
ao peito. E essas palavras ressoavam-me agora, como uma profecia
realizada.

Note-se que eu estava em Veneza, ainda recendente aos versos de
lord Byron; lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o
pretérito, crendo-me na Sereníssima República. É verdade; uma vez
aconteceu-me perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse
dia. — Que doge, signor mio? Caí em mim, mas não confessei a
ilusão; disse-lhe que a minha pergunta era um gênero de charada
americana; ele mostrou compreender, e acrescentou que gostava
muito das charadas americanas. Era um locandeiro.

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