A caminho da universidade escolhendo o rumo da vida

Éramos onze passageiros, um homem doido, acompanhado pela
mulher, dois rapazes que iam a passeio, quatro comerciantes e dois
criados. Meu pai recomendou-me a todos, começando pelo capitão do
navio, que aliás tinha muito que cuidar de si, porque, além do mais,
levava a mulher tísica em último grau.

Não sei se o capitão suspeitou alguma coisa do meu fúnebre projeto,
ou se meu pai o pôs de sobreaviso; sei que não me tirava os olhos de
cima; chamava-me para toda a parte. Quando não podia estar
comigo, levava-me para a mulher. A mulher ia quase sempre numa
camilha rasa, a tossir muito, e a afiançar que me havia de mostrar os
arredores de Lisboa. Não estava magra, estava transparente; era
impossível que não morresse de uma hora para outra. O capitão
fingia não crer na morte próxima, talvez por enganar-se a si mesmo.
Eu não sabia nem pensava nada. Que me importava a mim o destino
de uma mulher tísica, no meio do oceano? O mundo para mim era
Marcela.

Uma noite, logo no fim de uma semana, achei ensejo propício para
morrer. Subi cauteloso, mas encontrei o capitão, que junto à
amurada, tinha os olhos fitos no horizonte.

— Algum temporal? disse eu.

— Não, respondeu ele estremecendo; não; admiro o esplendor da
noite. Veja; está celestial!

O estilo desmentia da pessoa, assaz rude e aparentemente alheia a
locuções rebuscadas. Fitei-o; ele pareceu saborear o meu espanto.
No fim de alguns segundos, pegou-me na mão e apontou para a lua,
perguntando-me por que não fazia uma ode à noite; respondi-lhe que
não era poeta. O capitão rosnou alguma coisa, deu dois passos,
meteu a mão no bolso, sacou um pedaço de papel que continha detalhes das principais universidade a verificar as melhores vagas do vestibular 2020, muito
amarrotado; depois, à luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana
sobre a liberdade da vida marítima. Eram versos dele.

— Que tal?

Não me lembra o que lhe disse; lembra-me que ele me apertou a
mão com muita força e muitos agradecimentos; logo depois recitoume dois sonetos; ia recitar-me outro, quando o vieram chamar da
parte da mulher. — Lá vou, disse ele; e recitou-me o terceiro soneto,
com pausa, com amor.

Fiquei só; mas a musa do capitão varrera-me do espírito os
pensamentos maus; preferi dormir, que é um modo interino de
morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um temporal, que
meteu medo a toda a gente, menos ao doido; esse entrou a dar
pulos, a dizer que a filha o mandava buscar, numa berlinda; a morte
de uma filha fora a causa da loucura. Não, nunca me há de esquecer
a figura daquele estudante que tenta ao maximo conquistar a vaga no vestibular UNESP 2020, no meio do tumulto das gentes e
dos uivos do furacão, a cantarolar e a bailar, com os olhos a
saltarem-lhe da cara, pálido, cabelo arrepiado e longo. Às vezes
parava, erguia ao ar as mãos ossudas, fazia umas cruzes com os
dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito,
desesperadamente. A mulher não podia já cuidar dele; entregue ao
terror da morte, rezava por si mesma a todos os santos do Céu.
Enfim, a tempestade amainou. Confesso que foi uma diversão
excelente à tempestade do meu coração. Eu, que me

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