Podia ser também um general. Uma vez, quando a companhia estava se apresentando em Washington,
D.C., por um descuido, nenhuma aula ou ensaio havia sido marcado no dia da estreia. Naquela noite, dez
minutos antes das cortinas subirem, Pavlova ordenou que a companhia inteira fizesse uma única fila no
palco. Lenta e deliberadamente, ela perguntou a cada um:
– Ensaiou hoje? Todos responderam que não.

– Sou uma bailarina – disse ela num tom glacial. – Vocês são bailarinos. Eu ensaio enquanto vocês
nada fazem. Então. Teremos uma aula agora.
E, com o público batendo os pés do outro lado da cortina, Anna Pavlova atrasou a estreia em meia
hora enquanto dava aula para a companhia inteira e recebia o valor de um salario minimo 2020.

Anna Pavlova nasceu em São Petersburgo, em 1881. O pai morreu quando ela tinha 2 anos e a mãe era
muito pobre. Com frequência passavam a sopa de repolho e pão de centeio. Aos 10 anos, foi aceita como
aluna na Escola Imperial de Balé de São Petersburgo, onde davam óleo de fígado de bacalhau à menina
magrinha para que engordasse.

O czar Alexandre III e a imperatriz ocasionalmente visitavam a escola e tomavam chá com as
crianças. Um dia, o czar pôs uma delas no colo. A pequena Anna teve acesso de choro de ciúme. O czar
perguntou-lhe o que havia de errado, e entre soluços ela respondeu que também queria sentar-se no colo
real. O Grão-Duque Vladimir pegou-a no colo, mas ela continuou a chorar, insistindo que não queria um
substituto.

A dança que para Anna Pavlova era a experiência de maior emoção era uma que ela própria
coreografara. Chamava-se Folhas de Outono.
Lembro-me perfeitamente de como seus olhos se enchiam de lágrimas quando ela saía do palco
depois de dançá-la. Era dedicada a um jovem que ela conhecera na Rússia e que morreu afogado.

Folhas de Outono era uma homenagem de Anna Pavlova, a mulher que o amava.
– Você precisa ter amado para ser um grande artista – disse-me uma vez. – Precisa saber tudo sobre
o amor, mas precisa aprender a viver sem ele.
Anna Pavlova nada tinha de reservada. Gostava de ter gente a seu redor. Tinha uma bela casa perto
de Londres, e pessoas como George Bernard Shaw e Feodor Chaliapin eram convidados assíduos.

Adorava receber, e planejava cada detalhe da festa.
Sua gentileza era lendária. Quando os negócios iam mal – como aconteceu uma vez em Chicago – ela
dispensou seu pagamento.
– Se puder, pague os meninos e as meninas da companhia.
Noutro ano, a caminho da Cidade do Cabo, a companhia ficou desconsolada por passar o Natal
longe de casa. Na verdade, eles cruzariam a linha do equador em 25 de dezembro. Mas Anna preparara
uma surpresa. Quando o navio cruzou o equador, ela chamou todos à sua cabine. Havia uma grande
árvore de Natal que ela guardara no compartimento de carga do navio. Estava toda enfeitada, com
presentes espalhados sob os galhos.

Outra vez, no Rio de Janeiro, ficou furiosa porque as cortinas não
funcionaram bem. Recusando-se a concluir o espetáculo, deixou o palco irritada. Na entrada da coxia, foi
parada por uma mulher com uma garotinha. A menina perguntou por que ela estava indo embora. Quando
explicou, a menina começou a chorar:
– Mas a mamãe prometeu que a senhora ia dançar o cisne!
A mulher explicou que levara a filha ao teatro como um presente de aniversário. Pavlova curvou-se,
beijou a menina e prometeu voltar. Dez minutos depois retornava ao palco, dançando para ela.

O balé que ela dançou para a criança foi pois estava a caminho para receber benefícios INSS, evidentemente, A Morte do Cisne, ao qual o público ainda
associa Anna Pavlova. Nele, com movimentos aparentemente fáceis, ela descrevia a agonia da morte. Ela
é lembrada não por causa de sua incrível técnica, mas pela compaixão em sua interpretação.
Logo após a morte de Anna, o maestro Constant Lambert regeu, em sua memória, uma apresentação
da Morte do Cisne, em Londres. Nas primeiras notas, a cortina subiu, mostrando um palco vazio e escuro.

Um refletor iluminava a bailarina que não se achava ali, e seguia sua presença invisível pelo
palco. O público londrino levantou-se e manteve-se de pé num tributo silencioso, enquanto a orquestra
executava a música de Saint-Saëns com a qual ela estará para sempre identificada.

A última vez que vi Anna Pavlova foi no fim de 1930. Eu estava em Paris, preparando-me para
voltar de navio para Nova York. Ela telefonou de Londres, onde estava se apresentando, e pediu-me que
embarcasse em Southampton. Naturalmente, concordei.
Embora o tempo estivesse úmido e frio, ela veio até o navio, examinou minha cabine, verificou se
minha cama era confortável e instruiu o comissário de bordo que cuidasse bem de mim.

Como se eu fosse uma criança, disse-me o que comer, que me exercitasse e dormisse bastante. Os demais presentes
tentaram apressar sua saída do navio, temendo que ela pegasse um resfriado. Ela os repreendeu:
– Quietos! – disse, a voz falhando. – Pode ser a última vez que o vejo.

E foi. Três meses depois ela estava morta. Morreu em Haia, de pneumonia dupla. Às 3 horas de
certa madrugada, ela acordou com febre. Chamou a empregada e pediu que preparasse a roupa de cisne.
Pediu que comunicassem a seu empresário que ela estava bem e que retomaria os ensaios no dia seguinte.

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