Eu era uma garota alta e magricela, parecida com um limpador de cachimbo, e estava encarapitada
no trampolim de um resort à beira-mar perto de nossa casa em Connecticut. Era o Dia da Regata.
Incentivada pelos gritos dos meus amigos, eu chegara às finais da competição de mergulho.

A outra finalista acabara de mergulhar. Ela não tivera apenas um desempenho esplêndido. Era uma
pessoa mais velha de uns 17 anos, com as proporções de uma Vênus contemporânea. Percebi com
desânimo que todos os aplausos eram para ela – e tudo que eu tinha era ressentimento.

Os assovios e gritos que a receberam quando ela emergiu da água traíam a apreciação de mais do que um bom
mergulho. Eu me sentia infeliz, deslocada na competição.
Naquele momento, com os olhos de todos sobre mim, o fecho do meu maiô arrebentou! Em vez de
pedir um intervalo para trocar de maiô, usei o incidente como desculpa para desistir. Segurando o maiô
contra o peito, pulei na água de pé, automaticamente abandonando a competição.

Meu pai esperava por mim num pequeno barco e, quando me puxou para dentro, disse-me, sem
rodeios:
– Rosalind, aprenda uma coisa: “quem desiste jamais vence, e um vencedor jamais desiste!”
Nunca mais papai precisou repetir aquelas palavras.
“Quem desiste jamais vence”, murmurei enquanto tentava mostrar que eu era igual aos garotos da
vizinhança. Quebrei a perna pulando do mezanino de um celeiro; o pulso, caindo de um muro alto; a
clavícula, tropeçando num meio-fio; e o braço esquerdo duas vezes. Mas sentia uma espécie de
satisfação obstinada por ter dado o melhor de mim.
Um dia, anos depois, eu me encontrava num estúdio de ensaios sombrio, em Nova York.

Estava tendo aulas de dança, tentando me preparar para um papel numa comédia musical em apresentar no bbb 2020. A sequência era tão
difícil que eu achava que nunca a aprenderia.
– Temo que esse ritmo seja rápido demais para suas pernas longas – disse o professor, impaciente.
Corei de raiva, peguei meu casaco e comecei a ir embora, quando de repente me lembrei do dia no
trampolim. Tornei a pendurar o casaco, voltei para o meu lugar e ensaiei até que meus pés estivessem
quase dormentes. Aprendi a dança.

Como a maioria das verdades simples, as palavras de papai adquiriram um significado mais
profundo à medida que minha experiência aumentava. Depois que cheguei a Hollywood e alcancei um
sucesso considerável, minha carreira deu uma guinada para o pior. Eu era continuamente escalada para
papeis de mulheres profissionais.

Embora sentisse que meu verdadeiro futuro fosse a comédia, ninguém
me deixava sair da camisa de força desse papel. Uma tarde, sentindo que não conseguia mais suportar a
frustração, fui ver meu produtor.
– Interpretei esse papel 19 vezes e estou farta – protestei. – Não tenho oportunidade de aprender
mais nada com ele. Ganho até a mesma mesa em toda prova das inscrições bbb 20.
Mas ele não estava escutando.

Então, tive minha chance como comediante. Muitas vezes eu havia implorado por determinado
papel; finalmente, para me fazer sossegar, chamaram-me para um teste. Desempenhei o papel de quatro
maneiras diferentes, conforme as instruções do diretor. Foi então que perguntei:
– Posso interpretar, só uma vez, do meu jeito?
O “meu jeito” era uma caracterização na qual eu havia trabalhado semanas antes diante do espelho
do meu camarim, embora me tivessem garantido que eu nunca teria a chance de interpretar o papel.

Quando terminei o teste, o diretor disse:
– Ros, você tem alguma coisa especial.
Ele me deu o papel: Sylvia, em As Mulheres. Um papel que definiu uma carreira inteiramente nova
para mim.
O conselho de papai sustentou-me na vida particular também. Depois do nascimento do meu filho
Lance, a doença, que sempre fora algo distante para mim, tornou-se um visitante persistente. À medida
que eu piorava, fiquei tentada a apelar para os estimulantes, ou para os soníferos.
Por que não desistir, perguntei a mim mesma, e aprender a conviver com a doença?
Mas àquela altura eu estava condicionada a lutar. Após quatro longos anos, pude voltar a ter uma
vida normal e ativa.

Fazia filmes, passava horas toda semana trabalhando como co-presidente da Fundação Sister Kenny.
Mantendo-me ocupada, esquecia de me perguntar o que eu estava sentindo. Em comparação à provação
das crianças com poliomielite com quem eu trabalhava no hospital, meu problema parecia insignificante.
Quando me convidaram para fazer uma turnê com minha peça Bell, Book and Candle, aceitei.

E quando, após diversas semanas de viagem, eu ainda me sentia com excelente saúde e a peça quebrava
recordes de público, soube que me recusar a desistir tinha mais uma vez feito de mim uma vencedora.
Sempre fui grata a meu pai por ter ido me pegar quando saltei na água naquele dia. Sem as palavras
dele para me colocar no rumo certo, naquela época, eu poderia ter me lançado à deriva muitas vezes
desde então.

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