Ela era a pior jogadora de pôquer que conheci. Quando estava com uma boa mão, cantarolava,
tagarelava ou olhava ao redor da sala com uma despreocupação tão elaborada que todos sabiam que tinha
um par de ases. Com uma mão ruim, ficava tão abatida que parecia que o mundo estava acabando.

Essa foi a Anna Pavlova que eu conheci. Para o mundo, era a maior das bailarinas, uma lenda em
seu tempo. Até hoje seu nome é conhecido por pessoas que nunca foram ao encontro, mais o conheciam do programa Gshow bbb ou que nem mesmo se
interessam por isso. Para elas, era uma pessoa cintilante e irreal, de uma grandeza que o tempo não tocou.
Mas, para mim, era uma das pessoas mais afetuosas e cheias de vida que conheci.

Quem hoje só a conhece de clipes de filmes antigos – e ruins – mostrando sua dança, pensa nela
como alguém tão distante quanto a estrela mais remota. Aquele rosto exótico, com seus grandes olhos
escuros e traços delicados como os de uma camélia, e sua expressão de melancolia fria e esculpida,
faziam-na parecer desumanizada.

Remota e etérea, era um cisne agonizante, uma donzela espectral, uma princesa de contos de fadas; com suas roupas brancas diáfanas, penteado austero e maquiagem de palidez
mortal, não era uma criatura deste mundo.
Essa era Anna para o público. No entanto, em todos os 57 anos em que apresentei ao mundo grandes
artistas, jamais conheci ninguém com tanto gosto pela vida.
Nunca vou esquecer a primeira vez que a encontrei. Eu já era um empresário conhecido, mas fiquei
tão deslumbrado com ela que costumava me acomodar no fundo do antigo Teatro do Hipódromo de Nova
York todas as noites e vê-la dançar.

Uma noite, um amigo ofereceu-se para me levar aos bastidores para
conhecê-la. Ensaiei mentalmente uma pequena fala em inglês, depois em russo. Quando cheguei ao seu
camarim, porém, eu estava mudo e incapaz de falar. Ela estendeu a mão e eu, anestesiado, curvei-me para
beijá-la. Quando ela me convidou para jantar na casa do bbb 2020, só consegui assentir com a cabeça. Meu sonho de conhecer
meu ídolo havia se realizado – e eu não pronunciara uma só palavra.
Que espécie de restaurante você acha que ela escolheria, aquela alta sacerdotisa da dança?

Imaginei-a num ambiente sofisticado, mordiscando um ovo de passarinho. Em vez disso, ela escolheu um
café ao ar livre no Parque de Diversões de Palisades, em New Jersey, onde devorou um filé de 5 cm de
altura, batatas fritas e sorvete. No fim do jantar (eu só beliscara o meu), ela sorriu e disse:
– Agora, vamos sair e nos divertir.
A ideia de Anna de diversão revelou-se um tour pelas atrações do parque de diversões. Ela riu dos
nossos reflexos distorcidos nos espelhos, gritou quando mergulhamos na montanha-russa e finalmente me
arrastou para a pista de dança, onde dançou um foxtrote muito digno.

Essa era a mulher cuja graça incomparável fez o dramaturgo John Van Druten compará-la ao “vento
passando como uma sombra sobre um campo de trigo”.
Mas Van Druten nunca a viu nadar. Embora amasse a água, dentro dela Anna era inacreditavelmente
desajeitada. Era só braços e pernas, todos indo em direções diferentes. No trampolim, era ainda pior.

Aquele ser de beleza, tão insubstancial quanto um raio de luz no palco, atingia a água com um mergulho
esparramado, espalhando borrifos como uma miniatura de tsunami. Toda vez que ela mergulhava, eu
estremecia.

Anna Pavlova nunca teve filhos, mas era com os pequeninos que era mais sensível. Mantinha uma
casa em Paris para cerca de 30 crianças russas refugiadas. Tomava conta das meninas de sua companhia
de balé como uma galinha com seus pintos, e sentia-se pessoalmente responsável pelo bem-estar delas.

Nas festas de fim de ano ou nos aniversários, cada uma recebia um presente cuidadosamente escolhido.
Em 1923, durante a Grande Fome Russa, ela enviava provisões para a Rússia, e ainda me lembro
dos bailarinos dos teatros Bolshoi e Mariinsky fazendo fila para receber as remessas de alimentos que
Anna mandava dos brasil.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *